Múscia de fundo - O Lume
Tenho um efeito retardado dos acontecimentos e acabo sentindo fora de época os efeitos das coisas que acontecem. Hoje consigo sentir o que talvez deveria ter sentido meses atrás. Mas na época não conseguia enxergar o outro lado, nem um palmo na minha frente. Hoje consigo ver melhor as várias faces de cada obstáculo que surge no nosso caminho. Infelizmente o sentimento não tem nada de bom. Infelizmente é só decepção. Infelizmente estragaram tudo. Ainda bem que existe o tempo. O tempo pra levar. O tempo pra curar. O tempo pra fazer esquecer qualquer mágoa. Não gosto de estar chateada com as pessoas, muito menos decepcionada. Mas o tempo vai levar a mágoa. Porque muitas outras coisas já se foram. (In)Felizmente.
Escrito por Má às 14h33
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Tua boca
Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água
Escrito por Má às 22h01
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